Um mapa pra quê?

As sociedades filarmônicas representam uma das entidades culturais mais antigas em atividade na Bahia. De um passado de glória a um presente de resistência e grandes dificuldades, essas entidades perderam muito de sua identidade inicial, mas mantiveram vivo o seu papel estratégico na construção da democracia cultural baiana. 

Sua presença é disseminada em todo o estado, mais do que oferecer acesso à fruição artístico-cultural, as filarmônicas oferecem o ensino da música, a prática musical,  o desenvolvimento da capacidade criativa e a sociabilidade de crianças, jovens e adultos. 

As filarmônicas são espaços vivos de exercício da cidadania cultural. Nem mesmo na capital do estado, as oportunidades de vivenciar a música fora da condição de espectador e ouvinte é tão acessível como nos municípios que dispõem de, ao menos, uma filarmônica em atividade.  

O reconhecimento da sua relevância, capilaridade e valor histórico não são, no entanto, suficientes para o seu funcionamento em condições minimamente satisfatórias. A valente precariedade com que sobrevivem ou ressurgem as sociedades filarmônicas na Bahia é fruto de um campo cultural desorganizado, de uma tradição de dependência estabelecida entre atores culturais e o poder público, de uma política cultural incipiente, eventual e de reduzida construção coletiva. 

A visão das sociedades filarmônicas como uma entidade cultural ultrapassada e fadada a desaparecer não passa também de uma opinião retrógrada e anacrônica. 

A existência de um Sistema Estadual de Bandas no estado do Ceará ou a capacidade de crescimento exponencial das Sociedades Musicais em Valência na Espanha, são apenas dois exemplos pontuais e em realidades distintas, mas que revelam a possibilidade de atualização do olhar sobre essas entidades e, consequentemente, o aproveitamento do seu potencial. 

Reinventar esse espaço-agente diante das novas dinâmicas culturais vigentes na sociedade contemporânea é um processo que demanda esforços conjuntos e de diferentes esferas do campo cultural. E um dos pontos de partida para uma empreitada de tamanha envergadura não poderia ser outro senão a identificação da realidade sobre a qual se deseja atuar. O que está em total consonância com  as diretrizes, estratégias e ações do Plano Estadual de Cultura (Lei nº 13.193/2014), especialmente os §§ 3º e 4º do seu Art. 9º.

Até 2020 os dados mais recentes sobre as sociedades filarmônicas baianas datavam de mais de uma década. São dados obtidos (e não publicados) pela Fundação Cultural do Estado da Bahia através da sua então existente Coordenação de Filarmônicas em 2009. 

A Fundação Nacional das Artes (Funarte), por sua vez, dispõe de um cadastro de bandas que não sofre atualização, apenas acumula registros. 

A Federação das Bandas Filarmônicas da Bahia foi criada em 2013, mas não alcançou uma condição organizativa capaz de gerar qualquer informação dessa natureza. Enquanto em âmbito nacional inexiste uma entidade agregadora das sociedades filarmônicas brasileiras. 

Diante desta realidade, o Mapa das Sociedades Filarmônicas da Bahia se apresenta como um projeto de elevada relevância para o campo cultural baiano, produzindo resultados que podem beneficiar não exclusivamente às sociedades filarmônicas existentes na Bahia, mas aos gestores públicos, aos produtores culturais, aos artistas e cidadãos baianos. 

As filarmônicas baianas agora contam com um mapeamento atualizado em 2021 que lhes permitirá fortalecer suas redes e ampliar seu poder de articulação e negociação.

Os poderes públicos municipais e estadual contam com dados atualizados para o planejamento de suas políticas e ações futuras.

Os produtores culturais têm a possibilidade de descobrir um novo nicho de mercado e atuação profissional.

Os artistas, por sua vez, tem maior facilidade de estabelecimento de parcerias para apresentações e projetos em diferentes regiões do estado, ampliando a difusão e circulação cultural tão restrita à capital. 

Enquanto o/a cidadão(ã) baiano(a) tem a oportunidade de colaborar com a valorização, apoio e reconhecimento dessas entidades centenárias e escolas de música gratuita presentes em todo o território baiano.